{"id":1030,"date":"2012-05-15T16:27:29","date_gmt":"2012-05-15T14:27:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.assocardan.org\/?p=1030"},"modified":"2016-04-08T15:37:10","modified_gmt":"2016-04-08T13:37:10","slug":"quatro-vozes-de-mulheres-e-a-vida-um-dia-a-vez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.assocardan.org\/?p=1030","title":{"rendered":"Quatro vozes de mulheres e a vida um dia \u00e0 vez"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Margarida Vale de Gato, com Carolina Colarejo, Maria Beatriz Tavares, Maria Mota e Natalina Silva, no Centro de Dia da S\u00e9. Dessin :\u00a0B\u00e1rbara Assis Pacheco.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>quatro vozes de mulheres e a vida um dia \u00e0 vez<\/strong><br \/>\n1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No princ\u00edpio havia o campo e os lavores. \u00c9ramos oito irm\u00e3os e um que morreu, o pai a monte, a m\u00e3e aflita, e sempre algu\u00e9m adoecia. E foi quando ela se meteu para Lisboa para tratar uma com mais complica\u00e7\u00f5es. Acharam felizmente onde servir,<br \/>\ne ent\u00e3o viemos todos a seguir. Eu, com jeito para coser, idade para namorar, afei\u00e7oei-me, tive sorte, arranjei bom marido, bons sogros. Foi ele \u00e0 frente, j\u00e1 nascida a filha,<br \/>\ntentar a sorte para o ultramar, p\u00f4s-nos casa, mandou-nos chamar. Angola, t\u00e3o diferente, outros modos de ser livre, de ter sol; nem notei nunca que um preto quisesse mal \u00e0 gente quando ia l\u00e1 \u00e0s sopas do jantar. Sa\u00edamos sempre aos fins de semana, h\u00e1 uma foto em que eu estou de fato de banho a pescar.<br \/>\nCasou mal o meu rapaz, n\u00e3o sei onde anda, mas h\u00e1 que precaver o qu<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e deixamos. Criei 3, tenho 6 netos, 2 bisnetos e aos 85 anos tanto ainda que fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.<br \/>\nNunca quis dar desgostos a meus pais, e tenho hoje duas filhas que n\u00e3o espero ver. Mas nunca disse mal de ningu\u00e9m e n\u00e3o pe\u00e7o mais para mim: mesa para comer, cama<br \/>\npara dormir, casa onde viver. Agora, a minha, \u00e0 R. das Canastras, \u00e9 grande, eu ando por aqui desde que morreu o pai e fugi e deixei para l\u00e1 a guardar gado o homem que era ruim e me fazia desgra\u00e7ada. Vim servir, e tanto tempo me faltaram tecto e condi\u00e7\u00f5es, e chegou Abril. Ajudei a Uni\u00e3o dos Trabalhadores mas n\u00e3o quis ocupar nunca, antes fui pagar, com o meu dinheiro e um empr\u00e9stimo de cento e dez contos ao banco na altura. Gostei do ar da revolu\u00e7\u00e3o, mas me desapego hoje destas ruas onde cheira a falta de respeito e podrid\u00e3o. Por isso mais fico onde me sinto em fam\u00edlia com o meu filho, o meu neto e as arrelias da minha nora. Fiz de tudo para n\u00e3o passarmos fome. N\u00e3o aprendi a escrever mas apanho bem as legendas, s\u00f3 me custa quando tenho de assinar o nome.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1031 aligncenter\" title=\"BAP -MVG\" src=\"http:\/\/www.assocardan.org\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/BAP-MVG.gif\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/www.assocardan.org\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/BAP-MVG.gif 320w, https:\/\/www.assocardan.org\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/BAP-MVG-300x211.gif 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.<br \/>\nMenina fui levada de casa de meus pais, mas melhor sorte achei que a mo\u00e7a do Bernardim; sempre tive bom trato e sempre gostaram de mim. Mais: fiz o que quis. N\u00e3o fiquei por casa a ser prendada porque era amiga da rua, de bailes e vara larga, e tanto o ar me faltava que o meu tio acedeu a montar um estabelecimento onde eu<br \/>\npudesse trabalhar. Tirei cursos, guardei livros, e pus-me cedo a namorar com o rapaz<br \/>\nque desde os catorze anos montou cerco \u00e0 minha casa. Ora, j\u00e1 na altura eu pela rua<br \/>\no catrapiscava, pelo que foi \u201cver-te e amar-te\u201d. Muito felizes fomos, at\u00e9 que lhe veio a morte. T\u00ednhamos um c\u00e3o que gostava de dar cabo do terra\u00e7o. Por entre visitas de filhos e vizinhos, cultivo a leitura e as minhas quadras, semeio canteiros, e ainda conversamos muito os dois, dou os meus passeios e depois com do\u00e7ura conto-lhe, para que se lembre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4. Eu c\u00e1 nasci do nada e fui criada por um funileiro que tinha m\u00e3o de artista, mas que todos sabiam n\u00e3o ser meu pai, e h\u00e1 quem diga que fui filha de ciganos ou comunistas. N\u00e3o sei da hist\u00f3ria da mulher que p\u00f4s em verso uma mosca a zumbir quando morreu,<br \/>\ne se viu jazer, a gente \u00e0 volta e fosca a luz, posto que aberta ainda a janela; sei, por\u00e9m, do insecto insolente que ciranda em dias cinza e se enrosca adentro do que nos cerca e nos faz s\u00f3s. Mas mal ou bem, n\u00e3o troco este presente, um dia \u00e0 vez, sentir a minha fibra, mau grado os fracos nervos \u2013 antes ou\u00e7o a vida que em mim vibra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Margarida Vale de Gato, com Carolina Colarejo, Maria Beatriz Tavares, Maria Mota e Natalina Silva, no Centro de Dia da S\u00e9. 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