{"id":1033,"date":"2012-05-15T16:38:45","date_gmt":"2012-05-15T14:38:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.assocardan.org\/?p=1033"},"modified":"2016-04-08T15:35:54","modified_gmt":"2016-04-08T13:35:54","slug":"entre-forros-e-entretelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.assocardan.org\/?p=1033","title":{"rendered":"Entre forros e entretelas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Jaime Rocha\u00a0com Violeta, Madalena, Lu\u00eds, H\u00e9lder , Isaura, \u00c1urea e Manuel,\u00a0no Centro Social de S. Crist\u00f3v\u00e3o e S. Louren\u00e7o.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.assocardan.org\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/BAP-JR-1.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1036\" title=\"BAP - JR-1\" src=\"http:\/\/www.assocardan.org\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/BAP-JR-1.gif\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/www.assocardan.org\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/BAP-JR-1.gif 320w, https:\/\/www.assocardan.org\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/BAP-JR-1-300x211.gif 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entre forros e entretelas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro molha-se, passa-se a ferro, corta-se a fazenda.<br \/>\nDepois divide-se em pe\u00e7as e alinhava-se at\u00e9 \u00e0 primeira prova.<br \/>\nA seguir, acerta-se com o desenho e v\u00eam ent\u00e3o as entretelas,<br \/>\no pano cru, o ferro. Rola-se, prova-se de novo, corta-se os forros.<br \/>\nE volta-se outra vez \u00e0s entretelas. O respons\u00e1vel deste mister<br \/>\n\u00e9 o oficial; ou o patr\u00e3o, na sua aus\u00eancia. S\u00f3 ent\u00e3o as costureiras<br \/>\ncome\u00e7am a fazer o casaco, chuleando, chuleando, guarnecendo.<br \/>\nPor fim, v\u00eam as segundas provas e por a\u00ed fora, at\u00e9 o casaco ficar<br \/>\npronto. Um casaco, dois casacos, milhares de casacos em toda uma vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser alfaiate, costureira, modista, ser ajudante ou meio-oficial destes of\u00edcios<br \/>\n\u00e9 estar de posse de todo um saber. Com uma diferen\u00e7a: quem fazia os casacos<br \/>\neram os homens, \u00e0s mulheres competia as cal\u00e7as. Tudo feito \u00e0 m\u00e3ozinha,<br \/>\nao dedal, com o giz na ponta dos dedos e a tesoura em riste. E os homens l\u00e1<br \/>\niam bem vestidinhos para os seus empregos de funcion\u00e1rios e de outros<br \/>\ntrabalhos do com\u00e9rcio. Nem todos, claro. Os outros, s\u00f3 em dias de festa<br \/>\ne de cas\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um saber possu\u00edam tamb\u00e9m as floristas ou quem sonhava em ser hospedeira<br \/>\nde bordo e se viu a vender sapatos e a vestir actores nos camarins dos teatros.<br \/>\nOu quem era campon\u00eas e lavrava a terra e guardava os bois quase desde o ber\u00e7o,<br \/>\nembora tivesse que vir fazer fatos para Lisboa e aprender a ler e escrever j\u00e1 adulto.<br \/>\nIgualmente um saber tinham as tecedeiras, as que cosiam panos para a apanha da azeitona a partir de sacos de a\u00e7\u00facar e faziam at\u00e9 molduras com essa arte. E as que bordavam em casa para sobreviverem. Sem esquecer o saber de quem teve de abandonar tudo para tratar da m\u00e3e doente, ficando parada no tempo. Ou quem, filha de estivador e lavadeira, andou anos a fio a costurar na cooperativa militar.<br \/>\nMas tamb\u00e9m h\u00e1 um especial saber em quem odiou ser banc\u00e1rio mas adorou ensinar matem\u00e1tica em Angola e teve de meter-se em minas e em cozinhas. Ou em quem se tornou silvicultor na Guin\u00e9, conheceu Sp\u00ednola e ajudou aquele dif\u00edcil pa\u00eds na floresta\u00e7\u00e3o e na planta\u00e7\u00e3o de caju.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um saber a que se podem juntar alguns n\u00fameros que viajam pela nossa mem\u00f3ria colectiva: 7 tost\u00f5es, 2 escudos, 32 escudos, 100 paus, 15 escudos. Valores<br \/>\nde todos os tamanhos que simbolizam uma \u00e9poca de pobreza, de trabalho \u00e1rduo, de muitos sofrimentos e alguns sonhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tamb\u00e9m se exibe outro saber, o conhecimento de alguns nomes da literatura, ainda que pela rama, de J\u00falio Dinis a Cam\u00f5es, de Lu\u00eds de Sttau Monteiro a Pessoa, da B\u00edblia ao Capuchinho Vermelho e romances de cordel, \u00abCaprichos\u00bb, folhetins e quadras soltas de poetas. Ou daquele a quem erigiram uma est\u00e1tua ali mesmo ao lado, em plena Mouraria, o poeta Afonso Lopes Vieira que escrevia bonitos versos como estes da Cantiga da Lavadeira:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abLevantou-se a minha linda<br \/>\nlogo pela manhaninha,<br \/>\ne n\u2019\u00e1gua fresca que brinca<br \/>\np\u00f4s-se a lavar a rupinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levantou-se a minha rosa<br \/>\ne foi lavar a rupinha,<br \/>\nque ficou alva e cheirosa<br \/>\nda m\u00e3o alva que a batia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora o vento, que namora,<br \/>\nque namora a minha linda,<br \/>\npela fresca relva fora<br \/>\np\u00f5e-se a espalhar a rupinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E fica a linda zangada<br \/>\nlogo pela manhaninha\u2026<br \/>\nMas linda, t\u00e3o linda e alva,<br \/>\nt\u00e3o alva como a rupinha!\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jaime Rocha\u00a0com Violeta, Madalena, Lu\u00eds, H\u00e9lder , Isaura, \u00c1urea e Manuel,\u00a0no Centro Social de S. 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