{"id":1040,"date":"2012-05-15T16:47:50","date_gmt":"2012-05-15T14:47:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.assocardan.org\/?p=1040"},"modified":"2016-04-08T15:35:17","modified_gmt":"2016-04-08T13:35:17","slug":"o-silencio-dos-pontos-cardeais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.assocardan.org\/?p=1040","title":{"rendered":"O sil\u00eancio dos pontos cardeais"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Rosa Alice Branco com Mamadou Bobo, Idiatu Barry, Maryna Holub, Bushra Saliim, Massoud Afhanty, Idrissa Diop e Mamadou Dram\u00e9. Dessin : Pierre Pratt.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O sil\u00eancio dos pontos cardeais<br \/>\n<\/strong><br \/>\nM\u00e3e, n\u00e3o v\u00e1s embora!<br \/>\nM\u00e3e, aonde vais?<br \/>\nA m\u00e3e, sentada no colo da cama, come\u00e7a a contar uma hist\u00f3ria. A crian\u00e7a sossega dentro da voz dela, os dedos mi\u00fados apertam firme e depois abrandam a for\u00e7a, at\u00e9 quase s\u00f3 um esvoa\u00e7ar de pele na tranquilidade de sentir a m\u00e3e t\u00e3o junto.<br \/>\n\u00c9 assim que a crian\u00e7a adormece sem saber que dorme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3e pode ser um pa\u00eds, um marido, uma mulher, uma terra: o lugar em que a nossa hist\u00f3ria se conta a toda a gente, s\u00f3 de a trazemos no corpo como uma roupa colorida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas quando a terra nos trata como \u00f3rf\u00e3os de outro nome \u00e9 preciso partir para longe do patr\u00e3o que escraviza ao ritmo das amea\u00e7as que lhe enfeitam a boca. O que o patr\u00e3o mais teme \u00e9 a palavra &#8220;livre&#8221; e pode arrastar na cal\u00fania quem ouse pronunciar o primeiro &#8220;l&#8221;, pode encafuar nas paredes da pris\u00e3o quem juntar o &#8220;i&#8221; e o &#8220;b&#8221;, pode mandar matar quem diga a palavra inteira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso fugir, mesmo que o marido rasgue a carne, amarre as m\u00e3os, espalhe no ch\u00e3o os cabelos sedosos de menina e a persegui\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha tr\u00e9guas desta, da pr\u00f3xima vez, e da vez que segue. Na fuga, o filho fica entregue a uma mulher. \u00c9 pouco tempo, diz a m\u00e3e \u2013 j\u00e1 venho, vou num p\u00e9, venho no outro. E perderam-se m\u00e3e e filho, tanto tempo at\u00e9 hoje. Ela fugiu das m\u00e3os viscosas do marido e ficou presa ao amor cego do filho. E vai caminhando sem olhos de ver, sem onde tocar, sem alfabeto para ler, em l\u00edngua alguma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso, sim, quando o pa\u00eds deixa de navegar e os problemas se emaranham. E ainda que a hist\u00f3ria fique partida a meio, um homem corre sem parar at\u00e9 ao primeiro lugar seguro, mas a mulher ficou com o oceano entre os dois. Um olho triste, o outro alegre, a mulher chegou depois de cinco anos de lonjura, mas ainda assim ele cala quase tudo. Foi de estar tempo demais a tecer sil\u00eancios que ele s\u00f3 fala com os olhos o que a boca esconde.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1041\" title=\"PP- RAB-1\" src=\"http:\/\/www.assocardan.org\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/PP-RAB-1.gif\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"268\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a guerra aflige a terra, antes prazenteira, n\u00e3o deixa escolha. \u00c9 partir, levando os estudos para continuar num pa\u00eds de paz: diplomas, certificados, bolsa de estudos. A vida parece anunciar-se, parece um futuro, mas a cada vez a esperan\u00e7a acaba por estopar. E fica-se com os pap\u00e9is na pasta e a vida por andar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou fugir, quando h\u00e1 esperteza e muita cobi\u00e7a, quando a vida corre bem e o abutre desce sobre os telhados e come a casa e a empresa. Essas aves n\u00e3o desperdi\u00e7am raz\u00f5es; atiram-se de patas e cabe\u00e7a a bicarem os bens, inventam a maldade que leva \u00e0 masmorra e \u00e0 tortura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou quando h\u00e1 bombas a estourarem a cabe\u00e7a, a explodirem a fam\u00edlia, quando se perde um filho para a tortura e se parte sem saber se se \u00e9 m\u00e3e de um filho vivo, ou j\u00e1 n\u00e3o mais. As noites assaltam as d\u00favidas e os dias s\u00e3o angustiados e t\u00e3o longos como no estio, um estio tingido pelo frio a tinir a pele. Acontece o filho aparecer por milagre, mas \u00e9 milagre incompleto: o filho com a carne tenra chacinada. Mas est\u00e3o todos juntos de novo, uns em cima dos outros, a dormirem onde a casa ex\u00edgua pode e a fadiga deixa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As bombas armadilham os sonhos, sempre que se parte em busca, com os livros do que queremos ser e do que j\u00e1 fomos, do trabalho que nos espera n\u00e3o se sabe quando, n\u00e3o se sabe. Mas a voz que faz levantar pela manh\u00e3 continua a proclamar o que queremos ser, enquanto o tempo corre mais veloz que os pap\u00e9is que tardam em chegar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo com tecto, ser refugiado \u00e9 n\u00e3o ter ref\u00fagio. \u00c9 trazer uma l\u00edngua perdida e ainda n\u00e3o ter achado: nada. \u00c9 j\u00e1 n\u00e3o ser e ser: mem\u00f3ria de um passado \u00e0 espera de um futuro arrancado. Quando se cruzam, os refugiados mostram aos outros as mesmas perguntas, as sem respostas, sem rumo, sem onde e sem como. Em cada olhar, s\u00f3 vemos o que deixaram para tr\u00e1s, e para frente v\u00e3o aprendendo a perder-se, mesmo nas perguntas que j\u00e1 n\u00e3o sabem perguntar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando est\u00e3o s\u00f3s, os refugiados mastigam a medo o sil\u00eancio dos pontos cardeais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rosa Alice Branco com Mamadou Bobo, Idiatu Barry, Maryna Holub, Bushra Saliim, Massoud Afhanty, Idrissa Diop e Mamadou Dram\u00e9. Dessin : Pierre Pratt. 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