{"id":672,"date":"2012-05-16T20:56:14","date_gmt":"2012-05-16T18:56:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.assocardan.org\/?p=672"},"modified":"2016-03-10T23:31:45","modified_gmt":"2016-03-10T22:31:45","slug":"vir-a-tona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.assocardan.org\/?p=672","title":{"rendered":"Vir \u00e0 tona"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Afonso Cruz com Marcelino Alves, Ricardo, Ra\u00fal Marques, Joaquim Nobre, Jo\u00e3o Parreira, Miguel Pinto, Bas\u00edlio Silva, Nuno Sousa.<\/em><br \/>\n<em>Biblioteca Municipal de Beja.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No jogo de sueca, s\u00f3 X se concentra. Est\u00e1 a jogar h\u00e1 anos, sem parar. Tem na m\u00e3o uma manilha de trunfo e tenta perceber quem tem o \u00e1s. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas X gosta de fazer contas. Aquilo que nos pode ajudar pode estar em qualquer lado: nos parceiros, nos advers\u00e1rios, nos sucessos, nas contrariedades.<br \/>\nY joga copas, que j\u00e1 todos sabem estar a corte. N\u00e3o se lembrou. Tem amn\u00e9sia e, mesmo que n\u00e3o tivesse, n\u00e3o teria vontade de se lembrar.<br \/>\nL\u00e1 fora passam duas motas. B foge de um pol\u00edcia depois de o ter provocado com um cavalinho. B \u00e9 um atleta, gosta de deixar os outros para tr\u00e1s.<br \/>\nO jogo de sueca continua. Enquanto joga uma cena de paus, R conta como era na escola: os pobres ficavam l\u00e1 atr\u00e1s, onde n\u00e3o se aprendia nada. Passava as aulas a desenhar montes. Era uma maneira de ter paisagem. S\u00f3 montes? perguntou Y. E \u00e1rvores, respondeu ele. Um dia at\u00e9 as semeei. Na mesma escola onde n\u00e3o me ensinaram nada. Agora, as \u00e1rvores s\u00e3o enormes e explicam, sem cadernos ou palavras, muita coisa a muita gente.<br \/>\nDa janela v\u00ea-se Um rapaz sentado no cais. Olha para a \u00e1gua, olha para os outros rapazes a nadar. Interroga-se: como \u00e9 poss\u00edvel fazerem aquelas coisas, manterem-se \u00e0 tona de \u00e1gua?<br \/>\nM n\u00e3o se apercebe de que \u00e9 a sua vez, est\u00e1 a ver o jogo de futebol que est\u00e1 a dar na televis\u00e3o. M lembra-se de, em mi\u00fado, quando tinha jeito, a vida lhe parecer correr para a baliza. Mas, de repente, h\u00e1 uma falta, \u00e9 o Destino, cego como um \u00e1rbitro: o pai n\u00e3o queria que ele jogasse. No intervalo de um jogo deu-lhe duas bofetadas e fez dele um pastor, depois outras coisas. Agora, olha para a televis\u00e3o, para o Barbosa que era t\u00e3o bom que at\u00e9 fintou a pr\u00f3pria carreira. Ele faria de maneira diferente se n\u00e3o tivesse levado duas bofetadas.<br \/>\nEnquanto observa o jogo de cartas, W conta um dos epis\u00f3dios mais marcantes da sua vida: quando mandava poesias an\u00f3nimas para uma rapariga de quem gostava. Um dia disse-lhe que estava apaixonado por ela. Ela respondeu-lhe que estava apaixonado por outro. Quem? N\u00e3o sei. N\u00e3o sabes? N\u00e3o sei. Ele contou-lhe que era o autor das cartas e, nessa altura, o jogo estava ganho: tinha o \u00e1s de trunfo.<br \/>\nSentado no sof\u00e1, Z tamb\u00e9m se lembra de uma paix\u00e3o. De como se sentia sozinho por gostar de uma cigana. Lembra-se do primeiro beijo que deram, no canto da boca. Toda a gente era contra aquela rela\u00e7\u00e3o que era vivida \u00e0s escondidas, que n\u00e3o era completa: era um beijo no canto da boca.<br \/>\nPara Y n\u00e3o h\u00e1 nada que valha a pena lembrar depois de o pai morrer. Y era o filho mais novo, o preferido. Da\u00ed para a frente n\u00e3o importa. Sem se lembrar que est\u00e1 a corte, volta a jogar copas.<br \/>\nL\u00e1 fora, o pol\u00edcia ainda persegue B &#8212; que desce por umas escadas a conduzir a mota &#8212; e os degraus s\u00e3o seus aliados: a mota da pol\u00edcia, mais robusta, mais gorda, fica com o escape preso na escada.<br \/>\nO rapaz que est\u00e1 sentado no cais atira-se, s\u00e3o quase cinco metros at\u00e9 \u00e0 \u00e1gua. Quer aprender a nadar, quer estar junto dos outros em vez de ser o gordo em cima do cais. \u00c9 mais ou menos como a vida de muita gente: atirar-se. Depois, esperar vir \u00e0 tona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Afonso Cruz com Marcelino Alves, Ricardo, Ra\u00fal Marques, Joaquim Nobre, Jo\u00e3o Parreira, Miguel Pinto, Bas\u00edlio Silva, Nuno Sousa. Biblioteca Municipal de Beja. No jogo de sueca, s\u00f3 X se concentra. 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