Entre forros e entretelas

Jaime Rocha com Violeta, Madalena, Luís, Hélder , Isaura, Áurea e Manuel, no Centro Social de S. Cristóvão e S. Lourenço.

Entre forros e entretelas

Primeiro molha-se, passa-se a ferro, corta-se a fazenda.
Depois divide-se em peças e alinhava-se até à primeira prova.
A seguir, acerta-se com o desenho e vêm então as entretelas,
o pano cru, o ferro. Rola-se, prova-se de novo, corta-se os forros.
E volta-se outra vez às entretelas. O responsável deste mister
é o oficial; ou o patrão, na sua ausência. Só então as costureiras
começam a fazer o casaco, chuleando, chuleando, guarnecendo.
Por fim, vêm as segundas provas e por aí fora, até o casaco ficar
pronto. Um casaco, dois casacos, milhares de casacos em toda uma vida.

Ser alfaiate, costureira, modista, ser ajudante ou meio-oficial destes ofícios
é estar de posse de todo um saber. Com uma diferença: quem fazia os casacos
eram os homens, às mulheres competia as calças. Tudo feito à mãozinha,
ao dedal, com o giz na ponta dos dedos e a tesoura em riste. E os homens lá
iam bem vestidinhos para os seus empregos de funcionários e de outros
trabalhos do comércio. Nem todos, claro. Os outros, só em dias de festa
e de casório.

Um saber possuíam também as floristas ou quem sonhava em ser hospedeira
de bordo e se viu a vender sapatos e a vestir actores nos camarins dos teatros.
Ou quem era camponês e lavrava a terra e guardava os bois quase desde o berço,
embora tivesse que vir fazer fatos para Lisboa e aprender a ler e escrever já adulto.
Igualmente um saber tinham as tecedeiras, as que cosiam panos para a apanha da azeitona a partir de sacos de açúcar e faziam até molduras com essa arte. E as que bordavam em casa para sobreviverem. Sem esquecer o saber de quem teve de abandonar tudo para tratar da mãe doente, ficando parada no tempo. Ou quem, filha de estivador e lavadeira, andou anos a fio a costurar na cooperativa militar.
Mas também há um especial saber em quem odiou ser bancário mas adorou ensinar matemática em Angola e teve de meter-se em minas e em cozinhas. Ou em quem se tornou silvicultor na Guiné, conheceu Spínola e ajudou aquele difícil país na florestação e na plantação de caju.

Um saber a que se podem juntar alguns números que viajam pela nossa memória colectiva: 7 tostões, 2 escudos, 32 escudos, 100 paus, 15 escudos. Valores
de todos os tamanhos que simbolizam uma época de pobreza, de trabalho árduo, de muitos sofrimentos e alguns sonhos.

Mas também se exibe outro saber, o conhecimento de alguns nomes da literatura, ainda que pela rama, de Júlio Dinis a Camões, de Luís de Sttau Monteiro a Pessoa, da Bíblia ao Capuchinho Vermelho e romances de cordel, «Caprichos», folhetins e quadras soltas de poetas. Ou daquele a quem erigiram uma estátua ali mesmo ao lado, em plena Mouraria, o poeta Afonso Lopes Vieira que escrevia bonitos versos como estes da Cantiga da Lavadeira:

«Levantou-se a minha linda
logo pela manhaninha,
e n’água fresca que brinca
pôs-se a lavar a rupinha.

Levantou-se a minha rosa
e foi lavar a rupinha,
que ficou alva e cheirosa
da mão alva que a batia.

Ora o vento, que namora,
que namora a minha linda,
pela fresca relva fora
põe-se a espalhar a rupinha.

E fica a linda zangada
logo pela manhaninha…
Mas linda, tão linda e alva,
tão alva como a rupinha!»

Jaime Rocha com Violeta, Madalena, Luís, Hélder , Isaura, Áurea e Manuel, no Centro Social de S. Cristóvão e S. Lourenço

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