Mundolariante

Emílio Remelhe com Samuel, Filipe, Júnior, Milton, Fernando, Claudio, “Tonekas”, João Pedro, “Cigano” e Nuno Sousa, no Centro Educativo Santo António. Dessins de Nuno Sousa et Texte d’Emílio Remelhe.

Amo as palavras, porque as palavras não têm amo. Odeio as palavras, porque deixam dizer certas coisas. Gosto mesmo de palavras ao adormecer. As mesmas que detesto quando me acordam.

As palavras de quem as detesta são as que lhe batem na testa.
A palavra «coser» ajuda todos os bolsos furados.
A palavra «lixo» é a que sobra de todas as outras e se recicla para continuar a existir.
A palavra «racismo» é uma paleta mal resolvida que suja a pintura.
A palavra «ódio» continua a tentar fazer um exército de sinónimos.
A palavra «traidores» é apanhada nas entrelinhas do texto mais cedo ou mais tarde.
A palavra «fechado» põe-se à janela, mas do lado de dentro.
A palavra «solidão» é amassada por mãos que deixam o forno por ligar.
A palavra «ler» é uma passagem de nível que tem prioridade sobre o comboio.
A palavra «publicidade» é um esconderijo que só mostra o que há em redor.


As palavras que prefiro talvez sejam as que firo, de preferência.
A palavra «paraíso» é um cartaz impresso do lado de lá.
A palavra «natureza» deixará ainda correr muitos rios de tinta.
A palavra «liberdade» é um pisa-papéis com o peso que lhe quisermos dar.
A palavra «nenhuma» disfarça-se de si própria para tentar dizer o que não pode.
A palavra «amizade» continua a acreditar em toda a gente que a diz.
A palavra «amor» é uma prova deixada no local mesmo quando o crime não acontece.

As palavras gastaram-se, estão gastas.
Ao vir para casa, passa por onde quiseres e traz-me algumas, novas, frescas.
Não sejas DESCRENCIATÓRIO, podes trazer MULEIAS conservadas em PIACIA, JURTÍCIAS e outras, mas atenção, vem com ARTEÊNCIA, que no nosso MUNDOLÁRIO posso esperar com DESPACIÊNCIA.

 

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